23 de maio de 2007

Au revoir Nantes...

Não sei bem como começar o post, há varias ideias e várias sensações ao mesmo tempo.

Cheguei ao fim da linha desta aventura de 4 meses.

O fim de uma página que corajosamente quis escrever, o fim de um pequeno ciclo.

É engraçado, quando cheguei aqui e não conhecia ninguém, lembro-me de contar os dias que faltavam para o regresso. Agora, perto do fim, tento evitar falar nele.

A maior parte das despedidas estão feitas, não fiz muitos amigos, aliás posso mesmo contá-los pelos dedos, mas acho que fiz os amigos certos, foi essa a sensação que tive no regresso a casa depois de um último copo num bar de Nantes com eles. Quando começamos a sentir desde logo saudade, sabemos que conhecemos as pessoas certas.

Nos últimos dias tenho feito uma lista mental de todas as coisas que não fiz e que planeara ter feito, penso se teria mudado alguma coisa durante todo este tempo. É complicado analisar desta forma.

Queria ter viajado um pouco por todo o país, mas cedo compreendi que precisaria bem mais de 4 meses para o fazer, no entanto, acho que conheci os sitios certos, com as pessoas certas.
Tive a sorte de ter familia não muito longe daqui, que me fez sentir em casa e ajudou a controlar as saudades de Portugal.

Conheci esta cidade. A cidade que a 7 de Fevereiro me pareceu fria e arrogante e que deixo amanhã, com saudade de cada sitio por onde passei.
O ritmo acelerado a que a vida corre aqui, muito diferente do que estava habituado.
As pessoas, as culturas, a "verdadeira manta de retalhos" que um dia um professor de Francês falou.
A lingua, que julgava conhecer e que aprendi não ser bem a mesma que a que se aprende na escola.

Tanta coisa para falar que não sei sequer por onde começar e acabar.

A experiência marca por si. Acho que esta é uma das lições que tiro daqui.

Aprendi mais em 4 meses que em 4 anos. Acredito que mudei.
Sinto que saio daqui mais confiante. Sinto que progredi. Não só a nivel linguistico. Tenho concepções diferentes das que tinha há 4 meses atrás.

Se tivesse que escolher uma musica para este momento, "pediria" a Frank Sinatra o seu "My Way", porque sinto que vivi de forma bastante intensa estes quatro meses, porque os vivi à minha maneira, porque chego ao fim e tenho saudades de quase tudo e de todos.

A vida poderá ser tudo, menos previsivel.

Não deixo França como gostaria, o destino reserva-nos pequenos caprichos que não cabe a ninguém prever ou alterar.
Perdi alguém de muito querido esta semana, mas sinto-me feliz por ter estado uma ultima vez ao seu lado enquanto pude.

Saio de França da mesma forma como entrei - triste. Triste na chegada porque deixei para trás tudo e todos, triste na despedida porque deixo para trás aquela que foi a minha cidade durante 4 meses e amigos e familia que me receberam de braços abertos.

A quem por ventura ler isto, talvez lhe pareça confuso perceber. Não tentem perceber, partam à aventura. A vida é curta demais para ser desperdiçada.

Aos meus amigos, os meus "novos amigos", vos digo, provavelmente com alguns erro à mistura, "je suis vraimment content de vous trouver, vous êtes des personnes extraordinaires, je ne vous oublierai jamais, et je vous attend chez moi au Portugal bientôt".

Àqueles que dentro de alguns dias vou encontrar, obrigado pela força que me deram, os amigos - quando falaram comigo e os que me enviaram mensagens de força. Vocês sabem o valor que têm para mim.
Aos meus pais que me apoiaram desde a primeira ideia (ainda que primitiva, de ir para a Polónia), e fundamentalmente a ti Ana, mais que namorada és a amiga que está sempre comigo e me apoias em tudo. A tua vinda a França reforçou os meus niveis de confiança e deu-me coragem para chegar até aqui.
Por fim e nao menos importante, "merci á toute ma famille à Tours, je sais même pas comme est-ce que je peut vous remercier pour tout ce que vous avez fait. Merci d'être lá pour les moments dont la courage n'etait pas trés forte. Bonne courage pour l'avenir, vous savez de quoi je parle. Il faut que la vie continue, ceux qu'on aime seront toujours dans nos coeurs. Gros bisoux à vous tous. "

Poucas vezes senti a minha cabeça tao confusa como agora (oui, dans ma tête c'est le vrai bordel...). Sinto que fiz parte desta cidade, deste pais.
Fui um estrangeiro no meio de estrangeiros, um emigrante priveligiado, de malas e bagagens feitas (ou quase) para regressar à terra de Camões.

Para recordar, a ultima foto com os amigos "internacionais"...

Da esquerda para a direita: Ramy (Libano), eu, Marie (Grécia), François (Brasil), Luz (tuga também), Emma (Brasil) e Aga (Polónia).

À bientôt...

21 de maio de 2007

A idade do "Faz-de-conta" e do "Brinca-na-areia"

Tá na moda.

Ser-se o que não se é, passar-se por algo que nunca se foi.
Não é de agora, mas a moda tende a crescer a cada dia que passa.

Desde o belo do Hi5 com fotos para inglês ver, os "messenger's" com frases filosóficas que passam mensagens que geralmente só ao portador passam desconhecidas...

Dou por mim a pensar que não faltará muito para que hajam dois grandes tipos de pessoas: as ingénuas e as desconfiadas.
As primeiras, porque de facto não vêm para além do que têm à frente do nariz, as segundas porque conseguiram sair do primeiro estado e ja não acreditam que ainda existam pessoas genuinas.

Contudo elas existem.

Dentro desse (pequeno?) grupo, existem aquelas onde verdadeiramente reina um misto de estupidez com ignorância. E estas duas palavras não significam o mesmo.

A minha vitima de hoje é nada mais, nada menos, que um empregado da SNCF (em poucas palavras, a CP portuguesa) que me vendeu um bilhete de comboio.

"Quero um bilhete para Tours", disse eu em francês. "Para onde?!" perguntou ele. "Tours!"
...
"Escreva aqui neste papel que eu nao percebo".

Bem, nesta fase eu olhei para ele e passei-lhe imediatamente um atestado de incompetência.
É certo e sabido que não terei a pronuncia de um francês, mas eu disse exactamente como ele!

"Sabe, eu sou português, logo será normal".

"E eu sou Francês, e daí?"

"Daí que você é incompetente, porque está convencido que é superior por eu ser estrangeiro, quando você não fala um palavra de português, o que, estando em atendimento publico, é GRAVE" disse-lhe eu. E continuei "je suis vraiment desolée pour vous", que em português quererá dizer alguma coisa como "lamento imenso que voce seja um asno e não mereça cada euro que ganha".

Olhem que ele há com cada um...

E pronto, com isto, foi mais um francês que ficou a pensar que os portugueses são uns grandas "*********", mas eu também ja tenho uma ideia formada de alguns franceses, sobretudo a cambada do atendimento publico...

Bem, mais um engraçado que encontro..

Entretanto amanha escreverei o meu último post em Nantes, já há algum tempo que faço um balanço mental de tudo o que fez correr estes 4 meses, sinto-me um pouco confuso neste momento, mas amanhã esclareço.

11 de maio de 2007

A p*t+ da Anarquia

O sonho de todo o estudante começou hoje.

A tão aguardada chegada dos EXAMES!

Pronto. Primeiro exame - primeira frustração.

A disciplina tem um nome que em si já mete respeito. Materia para estudo: um livro, cujo autor é o próprio professor e que com ele ganhou mais 15€ às minhas custas.

Hora e meia de exame. Preparação prévia, umas belas horas (vá lá, vamos situar-nos nas 30).

20 páginas de resumos do dito livro. Até aqui tudo bem.
Chegado ao exame vejo que efectivamente...

SÓ TEM 3 PERGUNTAS!!!!!!!!!!! Uma das quais comentario pessoal!

Mas quem é este gajo?!?!?! Pela primeira vez este ano que me mato a estudar e o exame tem !3! perguntas?!?! 3?!?!?!

Bem, de facto os exames começaram da melhor maneira.
Como se pode imaginar por estas alturas paira em qualquer sala de exame que se preze um saudável ambiente de consternação, de angústia, mesmo de pesar (acreditem, sei do que falo).
Aqui, nada disso existe.

É verdade. Estou prestes a dar de caras com uma realidade que nem no meu imaginário alguma vez pairou. Eu diria tratar-se de uma anarquia autêntica. Forte demais? Vejamos:

Tou à espera de ser chamado á entrada do auditório para fazer exame e o meu nome não consta da lista, o professor ainda me questiona se eu tenho mesmo que fazer o exame (ó amigo, eu por mim ficava quieto, mas depois nao tenho nota...e a inscrição é feita ali na hora para evitar complicaçoes).

Tou a fazer exame, olho para a terceira fila atrás de mim e tá uma excelência a comer uma tosta. Outro a mandar mensagens de telemovel. Já não falo nos copianços que isso já é da praxe. Com 3 vigilantes na sala.

Ambiente liberal sim senhora.

Entretanto, Sarkozy, "o americano" como alguns lhe chamam, ganhou mesmo as eleições.
Foi bonito ver pela televisão milhares de pessoas na Place de la Concorde a festejar a eleição de um tipo que vai subir a idade de reforma dos 55 para os 60 anos, aumentar impostos, introduzir medidas severas na imigração... que diz mesmo implantar em França o chamado "American Way".

Eu de facto tremo perante a visão aterradora de ver um novo Bush na Europa. A politica não sai do ciclo vicioso, vamos livrar-nos do Blair, entra o Sar"con"zy no país vizinho para garantir a vassalagem ao Tio Sam.

Entretanto, é mesmo oficial, dia 26 tenho guia de marcha para Portugal!Já comprei o bilhete, já me chularam 79€!

Não vejo a hora de beber uma Sagres em solo Português!!!

2 de maio de 2007

Pensar alto

Já se torna quase um hábito pensar ao acaso quando nada mais (ou quase nada) há para fazer.

Aconteceu hoje, 2 de Maio de 2007, pouco depois da eliminação do último Luso na liga milionária.


Na televisão privada francesa um frente-a-frente entre os dois candidatos à Presidência que passam à segunda volta. São eles Nicolas Sarkozy e Ségolene Royal.

A "Direita" e a "Esquerda", respectivamente, em termos práticos.

A politica parece-me mesmo universal, e é continua a demagogia entre adversarios que se servem de exemplos que visam tocar a sensibilidade dos mais ingénuos para amealhar mais alguns votos.
Deixo claro que esta é apenas a opinião pessoal de um individuo de esquerda convicto, que não se surpreende de mesmo em outro país continuar a ver a falta de argumentos válidos do cinismo de Direita contra o pragmatismo de Esquerda.

Ridiculo.

Sra. Royal, os meus parabéns. Não sei se o facto de ter adoptado uma postura mais atacante lhe terá garantido mais alguns votos, mas deixou o seu opositor completamente K.O. Boa sorte para dia 6.

Todo este debate que durou perto de três horas (e que infelizmente apanhei já para lá de meio) me convidou a reflectir também sobre a sociedade francesa, comparando alguns aspectos com a realidade portuguesa.

Os deficientes, sobretudo inseridos no plano da educação, tiveram uma atenção especial por parte de ambos.
De facto, considero que a França estará mais adaptada a pessoas com necessidades especiais do que Portugal. Falo tanto a nível de transportes, a nivel de equipamentos (...), enfim, todo um leque de infraestruturas que, a meu ver, estao bem desenvolvidas e bem pensadas.

Infrastruturas há, mas falta a acção humana. Aí, perdoem-me o chauvinismo, mas Portugal estará bem à frente.
Tenho receio de generalizar demais, mas o leque de situações que vi em alguns sitios em que passei durante a minha estadia em França (regiões Pays de la Loire, Centre, Bretagne e Île de France) levam-me a crer que a amabilidade para com os outros viveu aqui mas emigrou há ja muito tempo.

Não podendo comparar países com dimensões de tal forma contrastantes, só posso pensar mesmo que quantidade não será certamente qualidade.

No aspecto económico, ainda que não podendo comparar (será quase sempre complicado e impossivel em alguns casos), continuo a acreditar que terei mais autonomia com o "exorbitante" salário minimo português de 400 e tal euros (em Portugal, claro está), que com os "modestos" 1200 euros franceses (en France, bien sur...).

Neste país onde se paga para tudo, é impossivel ter hábitos ditos portugueses, como a tradicional "bica" no café do lado depois da refeição com os amigos, à saída à noite com os personagens do costume e o copo da praxe, enfim, todo este ritual que geralmente todo o português (não só o boémio) tem e gosta de preservar.

Esses hábitos aqui "custam dinheiro". Por isso acho que os franceses saem bem menos, passam menos tempo em cafés, bares, passam menos tempo uns com os outros.

Talvez por isso não sinta os franceses tão sociaveis como vejo os portugueses.

Somos mais abertos, mais alegres, mais acolhedores. Mais pobres, é certo; menos desenvolvidos a nível técnologico, é inegável - mas mantemos a simpatia e a humildade que é afinal um estereótipo bem presente na cabeça de muitos estrangeiros que conheci aqui.

E tudo isto começa, tudo isto começou, com um mero debate politico, de que inicialmente não tinha pretensão de assistir, num país que tão pouco é o meu. Acho que isto mostra o quão abrangente é a questão política e os caminhos para onde a mesma nos leva quando, sem o saber-mos, nos começamos a abstrair da "politica nua e crua" para os problemas com que nos deparamos todos os dias.

Isso é politica. E todos lhe deveriam prestar um pouco mais de atenção. Apontar o dedo é quase sempre fácil. Quase sempre sem opiniões fundadas. À falta delas, é fácil que personagens como Sarkozy nos ludibriem.

Digo eu, que sou Português.