2 de maio de 2007

Pensar alto

Já se torna quase um hábito pensar ao acaso quando nada mais (ou quase nada) há para fazer.

Aconteceu hoje, 2 de Maio de 2007, pouco depois da eliminação do último Luso na liga milionária.


Na televisão privada francesa um frente-a-frente entre os dois candidatos à Presidência que passam à segunda volta. São eles Nicolas Sarkozy e Ségolene Royal.

A "Direita" e a "Esquerda", respectivamente, em termos práticos.

A politica parece-me mesmo universal, e é continua a demagogia entre adversarios que se servem de exemplos que visam tocar a sensibilidade dos mais ingénuos para amealhar mais alguns votos.
Deixo claro que esta é apenas a opinião pessoal de um individuo de esquerda convicto, que não se surpreende de mesmo em outro país continuar a ver a falta de argumentos válidos do cinismo de Direita contra o pragmatismo de Esquerda.

Ridiculo.

Sra. Royal, os meus parabéns. Não sei se o facto de ter adoptado uma postura mais atacante lhe terá garantido mais alguns votos, mas deixou o seu opositor completamente K.O. Boa sorte para dia 6.

Todo este debate que durou perto de três horas (e que infelizmente apanhei já para lá de meio) me convidou a reflectir também sobre a sociedade francesa, comparando alguns aspectos com a realidade portuguesa.

Os deficientes, sobretudo inseridos no plano da educação, tiveram uma atenção especial por parte de ambos.
De facto, considero que a França estará mais adaptada a pessoas com necessidades especiais do que Portugal. Falo tanto a nível de transportes, a nivel de equipamentos (...), enfim, todo um leque de infraestruturas que, a meu ver, estao bem desenvolvidas e bem pensadas.

Infrastruturas há, mas falta a acção humana. Aí, perdoem-me o chauvinismo, mas Portugal estará bem à frente.
Tenho receio de generalizar demais, mas o leque de situações que vi em alguns sitios em que passei durante a minha estadia em França (regiões Pays de la Loire, Centre, Bretagne e Île de France) levam-me a crer que a amabilidade para com os outros viveu aqui mas emigrou há ja muito tempo.

Não podendo comparar países com dimensões de tal forma contrastantes, só posso pensar mesmo que quantidade não será certamente qualidade.

No aspecto económico, ainda que não podendo comparar (será quase sempre complicado e impossivel em alguns casos), continuo a acreditar que terei mais autonomia com o "exorbitante" salário minimo português de 400 e tal euros (em Portugal, claro está), que com os "modestos" 1200 euros franceses (en France, bien sur...).

Neste país onde se paga para tudo, é impossivel ter hábitos ditos portugueses, como a tradicional "bica" no café do lado depois da refeição com os amigos, à saída à noite com os personagens do costume e o copo da praxe, enfim, todo este ritual que geralmente todo o português (não só o boémio) tem e gosta de preservar.

Esses hábitos aqui "custam dinheiro". Por isso acho que os franceses saem bem menos, passam menos tempo em cafés, bares, passam menos tempo uns com os outros.

Talvez por isso não sinta os franceses tão sociaveis como vejo os portugueses.

Somos mais abertos, mais alegres, mais acolhedores. Mais pobres, é certo; menos desenvolvidos a nível técnologico, é inegável - mas mantemos a simpatia e a humildade que é afinal um estereótipo bem presente na cabeça de muitos estrangeiros que conheci aqui.

E tudo isto começa, tudo isto começou, com um mero debate politico, de que inicialmente não tinha pretensão de assistir, num país que tão pouco é o meu. Acho que isto mostra o quão abrangente é a questão política e os caminhos para onde a mesma nos leva quando, sem o saber-mos, nos começamos a abstrair da "politica nua e crua" para os problemas com que nos deparamos todos os dias.

Isso é politica. E todos lhe deveriam prestar um pouco mais de atenção. Apontar o dedo é quase sempre fácil. Quase sempre sem opiniões fundadas. À falta delas, é fácil que personagens como Sarkozy nos ludibriem.

Digo eu, que sou Português.